Estudo de caso
FoodTrack
Reduzindo o desperdício e humanizando a gestão em bancos de alimentos

Resumo executivo
Bancos de alimentos locais sofriam com falta de controle de estoque e datas de validade, gerando desperdício de doações, enquanto cestas padronizadas ignoravam restrições alimentares reais dos beneficiários. Após 4 dias de imersão de campo, projetei uma aplicação de gestão de estoque com alertas preditivos de validade e montagem inteligente de cestas personalizadas, pensada para exigir tempo mínimo de curva de aprendizado dos voluntários. O resultado: montagem de cestas de 4h para 2h30 (−38%), estoque, desperdício e satisfação medidos pela primeira vez, e beneficiários que se declararam muito satisfeitos, mais dignos, vistos e acolhidos.
Contexto de negócio & o problema real
Trabalhando diretamente em operações de bancos de alimentos locais, identifiquei um grande desafio operacional e humano: esforços voluntários bem-intencionados sendo limitados pela falta de processos digitais e ferramentas adequadas.
A gestão baseada em anotações informais ou planilhas desconectadas gerava dois grandes problemas
Gargalo logístico e desperdício
Alimentos perecíveis vencendo nas prateleiras por falta de visibilidade do inventário e priorização de saída (PEPS: Primeiro que Entra, Primeiro que Sai).
Falta de empatia no atendimento
Cestas de alimentos genéricas distribuídas sem considerar a composição familiar, alergias ou restrições de saúde dos beneficiários, levando ao descarte pontual de itens doados.
Imersão & discovery (pesquisa de campo)
Para investigar as dores reais da operação, realizei uma imersão de 4 dias no ambiente dos bancos de alimentos, convivendo com voluntários e entrevistando beneficiários.
Os 3 principais achados da pesquisa
Invisibilidade do estoque
Os voluntários não sabiam exatamente quais itens precisavam ser distribuídos com urgência devido à falta de controle visual de prazos de validade.
Desconexão com o usuário
Não havia registro centralizado das pessoas atendidas, impedindo o acompanhamento de seus históricos e necessidades específicas.
Cestas padronizadas vs. necessidades variadas
Famílias recebiam itens que não podiam consumir (ex.: pessoas em situação de rua recebendo alimentos que exigiam cozimento, ou muçulmanos e judeus recebendo carne de porco).
Artefatos de discovery produzidos
Personas duplas
O Voluntário (que precisa de extrema simplicidade e rapidez no sistema) e o Beneficiário (que busca dignidade e acolhimento).
Mapeamento da jornada do usuário
Todo o ciclo: da recepção da doação, triagem, armazenagem, até o momento da entrega e feedback do beneficiário.
Decisões de produto & trade-offs
Com base nos insights do discovery, a definição de produto priorizou os seguintes pilares:
Curva de aprendizado zero
Como o perfil dos voluntários varia muito em idade e familiaridade com tecnologia, a interface foi desenhada com alta densidade de pistas visuais (cores para validade, ícones simples e botões grandes).
Sistema de alertas preditivos
O software prioriza automaticamente no topo da lista os alimentos mais próximos da data de vencimento para inclusão imediata nas próximas cestas.
Montagem personalizada de cestas
Módulo que sugere a composição da cesta com base nas preferências/restrições cadastradas no perfil do beneficiário e no estoque disponível.
Arquitetura responsiva
Telas otimizadas para uso em smartphones ou tablets diretamente na área de triagem de alimentos.
A solução (UI & fluxos de trabalho)
A. Painel de controle de estoque & alertas de validade
Visão clara dos itens em estoque categorizados por prazo de conservação, permitindo aos voluntários identificar rapidamente o que deve sair primeiro.
B. Cadastro humanizado de beneficiários
Formulário rápido para registrar o perfil da família, restrições alimentares, número de dependentes e histórico de retiradas.
C. Módulo de montagem de cestas inteligentes
Fluxo guiado que sugere os alimentos ideais para cada família, combinando a necessidade nutricional do beneficiário com a prioridade de escoamento do estoque.
Validação & impacto de negócio
- menos tempo na montagem de cestas (de cerca de 4h para 2h30)
- 38%
Eficiência operacional
Redução do tempo gasto pelos voluntários para conferir estoques e organizar as prateleiras.
Aproveitamento de doações
Controle do desperdício de itens perecíveis por perda do prazo de validade no depósito, que passou a ser registrado.
Dignidade no atendimento
Aumento no aproveitamento real dos alimentos entregues, garantindo que as cestas respeitem as restrições alimentares das famílias atendidas.
Antes do sistema não existia nenhum tipo de métrica: não havia cadastro de beneficiários, o desperdício não era registrado e a satisfação não era medida. Com o FoodTrack, esses indicadores passaram a ser calculados, e os beneficiários se declararam muito satisfeitos, sentindo-se mais dignos, mais vistos e acolhidos.
| Métrica | Antes | Depois | Variação |
|---|---|---|---|
| Tempo de montagem de cestas | Cerca de 4 horas | 2h30 | −38% |
| Cadastro de beneficiários | Inexistente | Cadastro centralizado, com restrições e histórico | Nova base de dados |
| Desperdício de alimentos por vencimento | Não era registrado | Registrado e medido | Nova métrica |
| Satisfação dos beneficiários com as cestas | Não era medida | Muito satisfeitos | Nova métrica |
Aprendizados & próximos passos
Projetar para o terceiro setor e trabalho voluntário reforça que ferramentas complexas são abandonadas rapidamente. O valor do design aqui foi transformar uma lógica de controle de estoque industrial em uma experiência fluida e empática.
Evoluções futuras
Mapeamento de rotas para coleta de doações em grandes estabelecimentos comerciais e integração com notificações push para avisar beneficiários sobre dias de distribuição.